quarta-feira, 24 de agosto de 2011

God's Gonna Cut You Down


 O par de botas segue pela ladeira de terra batida no meio da noite.Nada além de mim e a igreja no fim do caminho compõem a obscura pintura do momento.

"You can run on for a long time,run on for a long time.Sooner or later God's gonna cut you down...."

  O jeans velho condena o quanto eu já andei para chegar até aqui,o corpo rígido o quão difícil foi.A decisão no rosto,o quão empenhado estou em ir até o fim.Fico em pé diante do local e quando olho para a cruz no topo,o mundo faz a sua contribuição para o momento e como anunciada por uma trovoada,a chuva começa a cair.A água cai como tristes lágrimas sem parar e o frio que agora faz meus ossos tremerem só se estabiliza quando com força eu seguro o coldre do metal negro da morte que repousa em seu suporte ao lado da minha coxa direita.

"You can run on for a long time,run on for a long time.Sooner or later God's gonna cut you down...."

  E que venha a hora do juízo.Enquanto os cavaleiros fantasmas continuam cavalgando sem cansar por toda eternidade acima das nuvens.Eu abro as pesadas portas de madeira e me deparo com todo aquele salão divididos em bancos dos dois lados e que mesmo estando vazio parece me julgar.Nada daquilo ali se compara com a cruz iluminada no fundo do salão que me encara e desafia ao mesmo tempo.

"You can run on for a long time,run on for a long time.Sooner or later God's gonna cut you down...."

   Os passos sujos e molhados se arrastam pelo tapete que guia até o fim do salão e divide o grupo de bancos do lado direito dos do lado esquerdo.A mão que segura o revolver começa a suar manifestando o meu nervosismo mesmo que meus olhos não exitem por um segundo que seja.A pressão dentro de mim me faz pensar que meu peito vai explodir.

"You can run on for a long time,run on for a long time.Sooner or later God's gonna cut you down...."

  E eis que pecador veio hoje desafiar o criador.Levantando o revolver com a mão direita e abrindo o tambor com a esquerda;eu continuo seguindo até a cruz.Deslizando para a palma da minha mão vem uma a uma as cápsulas douradas.

"You can run on for a long time,run on for a long time.Sooner or later God's gonna cut you down...."

 Lanço todas elas aos pés da cruz.O que é um desafio e ao mesmo tempo um pedido de justiça.Se minha precisão já não basta e meus olhos não são tão rápidos como já foram,fique com as balas e se certifique que aqueles que merecem paguem o seu preço.Tenho nojo desse mundo em que todos são santos e pecadores mas que só alguns acabam pagando o preço por todos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

The End

   As trombetas começaram a soar.Com um som tão forte que faz todo meu corpo vibrar e que estala no atrito entre metais da armadura que cobre o meu corpo.Não passo da sombra do que fui eras atrás.
  O caminho do destino final já começou e nele eu arrasto meus decisivos passos.Passos que podem parar agora ou daqui a milênios.Mas que certamente por esse caminho não serão os mesmos.O metal de minha espada que um dia encheu de medo os corações daqueles que me enfrentaram agora cai cheio de ferrugem no solo negro infértil do meu caminho. A armadura que um dia já cintilou como o Sol,não passa de latão banhado na miscigenação do meu sangue e dos adversários caídos.
  O corpo apesar de não ter sido banhado por tantas luas no tempo dos homens não impede de transparecer a exaustão das penitências e desafios da alma. Meu rosto que por tanto tempo escondi na máscara de um sorriso,agora mostra seu verdadeiro ser.As cicatrizes profundas de todas as minhas lutas.
  A exaustão,a vivência implacável não me permitiu o luxo do arrependimento.Lutei quando tive de lutar,amei quando tive de amar e não fui poupado das tragédias de nenhum dos sentimentos que já viveu dentro de mim.É o preço a se pagar,quando tomamos a decisão de não deixar o mundo dobrar a sua vontade o que guardamos dentro de si.
  Se já fui algo um dia,pouco importa.O que é fato é que agora não passo de um nada.Preso no caminho do feixe de luz que é esperança e simultaneamente danação.Com o amanhã feito de cinzas ao vento e o futuro escrito em tinta negra eu sigo em frente.Minha própria sombra queimada pelo destino que me assola acaba me assustando e traços do passado/presente e futuro estão presos em um único rubi de decepção.
  Não há porque parar,não há porque voltar,não há porque desabar em lágrimas que queimam como chamas por estarem por muito tempo presas dentro de mim.Que minhas palavras não sejam confundidas com súplicas de lamentação pois pago o preço que a vida impõe sem me importar se fui digno disso.
  E que a vida abra fogo contra mim,não tenho medo das feridas pois já me acostumei com a dor.Cedo ou tarde o meu fim vai chegar.Se as lanças se posicionarem na minha frente,vou atravessá-las com minha carne e ossos sem pena porque a morte não segura aqueles que tem propósito.
  Cada passo é um mais próximo do fim,aceitar a condição de mortal é entender isso e persistir com a esperança que é a chama que arde dentro de mim mesmo que tudo o que resta já não viva mais.

domingo, 14 de agosto de 2011

Dimensão partida.

      É tão frio...
      Do alto desse penhasco,eu vejo a água bater sem piedade nas pedras lá embaixo.O vento aqui tem como única barreira as arvores negras e secas,já que meu corpo de joelhos é desprezível perante a natureza que me cerca.Então eu me jogo.
      E meu corpo é cortado,infinitos cortes na minha carne.Fruto do cruel impacto com os negros corvos de vidro que me cercam durante a minha queda,que protelam meu encontro com o fim.Será essa a saída?A luz que eu procuro?
      Tolas esperanças de um mortal em desespero....
      Aquilo que deveria ser um escape,se revela a transição do mundo fantasia.Uma outra dose de todos os vícios juntos:Amor,ódio e tudo mais.Pedras e mar se desmontam diante de mim,mostrando o caminho que vou seguir.
     Que mundo é esse onde me encontro?Onde trovões ecoam em uma mistura de brado e lamentação.
      E chove....
      Vejo tantos pessoas sem rostos passando por mim,faces vazias num branco sem fim.E o que me resta além de vagar entre eles?Eu não sei qual é meu papel aqui.Vim pelo caminho que a vida me trouxe e no qual no final a morte me espera.
       E que assim seja,que a jornada forme meu legado.Que é o meu trunfo de imortalidade depois do fim.