-Aproxime-se garoto,enxugue essas lágrimas,sente nessa cadeira,pegue um copo e um cigarro.
-Mas eu não fumo e nem bebo!
-Agora certamente você vai começar.
Relutante,o homem acaba enchendo um copo de whisky e começa a fumar um cigarro,tossindo e com as mãos tremendo.Muito mais pelo vermelho de seus olhos,pela instabilidade dos seus sentimentos,do que por simples medo.
-Não lembro de você mas sinto que te conheço de algum lugar,senhor.
-Maldita memória hein garoto?É claro que você me conhece e agora você ainda não faz ideia do quão bem.
-Eu não entendo,quem é você? E o que você quer?
-Quem eu sou? Você já sabe a resposta. O que eu quero? Falar de um assunto que toda língua no planeta tem algo a falar a respeito,mesmo daquelas de que não sai som algum.
-Política? Guerra? Do que diabos você está falando?
De olhos cerrados,e numa longa tragada no cigarro o homem retrucou: -É algo bem mais íntimo e que todo mundo ao menos uma vez sentiu ou já ouviu falar a sua maneira.
-Você tá falando de amor?
-Bingo.
-Mas por que logo amor? Não percebe que estou alterado? Se por algum motivo resolvesse perguntar o porque de eu estar assim,amor seria o último assunto que você iria querer conversar comigo!
O sorriso descarado provou que o assunto não fora escolhido por acaso e que o rumo da conversa estava preso a fios de marionete seguindo o caminho desejado.
-É justamente por isso que você está aqui.Eu vou te ensinar o algoritmo de amar e ser amado.
-Isso é loucura,amor não é exato.Não avisa como vem e tão pouco pode ser manipulado.
-Seu coração muda rapaz.Ele começa a caminhar como um homem,mas sua boca tende a falar como um menino.O amor é egoísta,idealizado. Idealizado em diferentes cabeças,por isso jamais padronizado e assim sendo...jamais perfeito.
-Mas o que diabos você está fazendo? Dizendo que não devo amar?
-Muito pelo contrário,estou te ensinando o caminho para amar.Caminho que não pode ser cruzado unilateralmente,que não avança sem compreensão,tolerância. Esqueça os contos de fadas que te contaram quando era criança.Esqueça a idealização de viver feliz para sempre.Isso é o mundo real e aqui quem ama,sofre.
-Mas,é demais pedir por carinho,fidelidade e compreensão?
-Claro que é. Enquanto nós jogamos com nossos sentimentos e com os dos outros a face esquelética da morte sorri para todos nós.Girando moedas de prata entre os dedos,pronta para tirar tudo de você.
Mais um copo cheio,mais cigarros acesos.
-Veja garoto,o tempo de hoje jamais será o mesmo de ontem e menos ainda o de amanhã.Cada um de nós é criado para pensar primeiramente no próprio bem-estar e colocá-lo a frente de tudo.Não é uma condenação do modo,mas uma constatação da verdade.Enquanto for assim,qualquer um que queira provar seu valor vai dar seu sangue por isso e para ter seus feitos apagados,bastará um sopro do vento.
-Mas,onde entra o amor nisso tudo?
-O amor não é só um sentimento onipotente.Agora é instrumento de trabalho.Os contos vendem porque são feitos pra agradar o sentimento idealizado.No nosso mundo os príncipes são corruptos,princesas infiéis e o" Rei" pode até oferecer dinheiro para manter você longe da preciosidade que é a(o) filha(o) dele.Mesmo num casal,o amor não é igual.Tende a balançar pra um lado,o lado daquele que ama mais a ponto de ignorar e relevar sempre as pequenas coisas achando que é tudo simples e que vai passar.
-Não importa o que você diga,as pessoas não vão deixar de amar.
-É claro que não.O vilão disso tudo,é o amor por comodidade.Aquele que acontece visando as vantagens enquanto é confortável.Amor sem sacrifício não é amar.Amor são sorrisos e lágrimas,caricias e brigas.E o detalhe mais importante de todos,é praticamente impossível de achar.
-Você fala de amor como impossibilidade,de tormentas,dificuldades.Como posso acreditar em você?
-Por que mesmo tentando me contrariar,é você que sentou aí como menino e vai se levantar como homem.Que resolveu dar ouvidos a sua mente balanceando com seu coração e que jamais tentará conversar com um espelho de novo para resolver seus problemas.
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